O encontro inesperado que mudou tudo: o homem que mudou minha vida trinta anos…

Meu nome é Alejandro Vargas. Tenho cinquenta e dois anos e sou presidente de uma construtora bastante conhecida em São Paulo. À primeira vista, minha vida parece perfeita. Uma casa grande em um bairro nobre, um carro de luxo estacionado todas as manhãs em frente ao escritório e dezenas de funcionários que se levantam quando entro em uma reunião.

Muita gente acha que eu tenho tudo. Mas a verdade é outra. Há coisas que a gente tenta enterrar com o passar dos anos. Lembranças que você decide guardar em um canto escuro da memória, esperando que o tempo as apague. Eu tentei fazer isso durante trinta anos. Trinta anos acreditando que certas histórias tinham ficado para trás.

Até o dia em que tudo voltou a me encarar de frente.

Image

Tudo começou com algo que parecia completamente normal. Na minha empresa havia um rapaz chamado Diego Moraes. Ele trabalhava na área técnica, revisando plantas e supervisionando detalhes na obra. Já estava conosco havia pouco mais de dois anos. Não era o tipo de funcionário que chama atenção. Não falava muito nas reuniões, nem era daqueles jovens que gostam de exibir talento na frente do chefe.

Mas havia algo nele. Algo que fazia com que as pessoas o respeitassem. Diego era daqueles trabalhadores silenciosos que chegam antes de todo mundo e vão embora quando já não resta ninguém. Várias vezes fui inspecionar obras à noite. É algo de que ainda gosto. Ver o avanço real, não o que dizem os relatórios. E muitas noites, ao passar pelo contêiner onde guardavam as plantas, eu o via ali. Sentado. Uma lâmpada branca iluminando a mesa. Um pote de comida simples aberto ao lado. E ele inclinado sobre os desenhos técnicos. Sempre o último a ir embora.

Numa noite, entrei sem avisar.

—Boa noite, engenheiro —disse ele, levantando-se imediatamente.

Aproximei-me da mesa.

—Ainda aqui?

—Sim, senhor.

Olhei para o relógio. Já eram quase onze horas.

—Você não está cansado?

Ele soltou um pequeno riso, daqueles que escapam sem pensar.

—Claro que estou… mas se eu não terminar isso hoje, amanhã a equipe da obra fica parada.

Fiquei olhando para ele. Havia algo honesto em sua voz. Nada de palavras calculadas. Nada de tentar impressionar.

—Você sempre trabalha até tão tarde?

Ele deu de ombros.

—Quando é preciso.

Image

Eu já ia embora quando ele disse mais uma coisa. Algo que me chamou a atenção.

—Além disso… minha mãe sempre dizia que trabalho honesto nunca pesa.

Minha mãe.

Não sei por que essa frase ficou na minha cabeça. Com o tempo, soube mais sobre ele. Diego era o único sustento da casa. O pai dele tinha morrido anos antes em um acidente de trabalho. Desde então, a mãe vinha lutando contra problemas de saúde havia muito tempo. Tratamentos. Remédios. Hospitais. Tudo era pago por ele. O salário dele não era alto. Na nossa empresa, um técnico jovem ganha entre 3 mil e 4.500 reais por mês. Mal o suficiente para sobreviver em áreas humildes como Itaquaquecetuba, na periferia de São Paulo.

Mesmo assim, nunca o ouvi reclamar. Nem uma única vez.

Os meses passaram. E então chegou aquela segunda-feira. Era cedo quando a gerente de recursos humanos entrou no meu escritório. Trazia uma pasta na mão.

—Engenheiro Vargas…

—Diga.

Diego Moraes pediu permissão para se ausentar por alguns dias.

Levantei os olhos do computador.

—Férias?

—Não.

A expressão dela mudou um pouco.

—A mãe dele faleceu ontem de madrugada.

O silêncio tomou conta do escritório. Eu não esperava ouvir aquilo.

Image

—E ele?

—Está no hospital.

—Hospital?

—Exaustão… segundo o médico. Ele vinha há semanas sem dormir direito.

Recostei-me na cadeira. Olhei pela janela. As avenidas de São Paulo já estavam tomadas pelo trânsito. Milhares de pessoas indo de um lado para o outro. Cada uma com sua própria história.

—Ele tem família?

—Só uma tia distante. Ninguém mais.

Não sei exatamente por que tomei a decisão que tomei. Talvez tenha sido a forma como ele trabalhava. Talvez tenha sido aquela frase sobre a mãe. Ou talvez… algo dentro de mim tenha reagido sem que eu entendesse.

—Onde ele mora?

A gerente de recursos humanos pareceu surpresa.

—Perdão?

—O endereço da casa dele.

Ela abriu a pasta.

—Em Itaquaquecetuba.

Anotei o endereço em um papel.

Image

—Vou passar lá para dar meus sentimentos.

Ela me olhou como se tivesse ouvido algo impossível. E tinha razão. Eu nunca fazia esse tipo de coisa. Mas naquele dia… fiz.

Naquela tarde, dirigi até Itaquaquecetuba. As ruas foram mudando aos poucos. Os prédios modernos deram lugar a casas pequenas, muros desgastados, postes cheios de fios e avenidas mais estreitas. Encontrei o endereço. Uma casa simples. Pintura antiga. Um portão de ferro.

Bati.

Uma vizinha atendeu.

—Está procurando o Diego?

—Sim.

—Ele está no hospital… mas pode entrar, se quiser deixar alguma coisa.

Entrei.

O interior era simples. Um sofá pequeno. Uma mesa. E, num canto… um altar improvisado da família, com velas, flores e fotografias. Aproximei-me sem pensar.

Primeiro vi a foto de uma mulher. Devia ser a mãe dele.

Depois… meus olhos pararam em outra imagem. A fotografia de um homem. Um homem jovem. Com um sorriso tranquilo.

O mundo parou. Senti o ar desaparecer do ambiente. Dei um passo para trás. Meu coração começou a bater com força. Não. Não podia ser.

Aproximei-me novamente. Olhei com atenção. O mesmo rosto. Os mesmos olhos. Trinta anos tinham se passado… mas eu jamais poderia esquecer aquele rosto. Sussurrei sem perceber:

—Não… isso não é possível…

Minhas mãos começaram a tremer. Porque o homem daquela fotografia… era alguém que eu acreditava ter perdido para sempre.

E naquele momento compreendi algo que gelou meu sangue. Diego Moraes… podia ser o filho do homem a quem eu devia toda a minha vida.

Previous Post Next Post